Texts

De sensu et sensato

As palavras, ideias, sugestões, aqui transcritas, adquiriram, por contágio, a mesma natureza que atravessa o trabalho da Martinha Maia, lugar esse onde nada é ou está verdadeiramente inerte, estanque ou fixo. O seu trabalho poder-se-á sintetizar na ideia de duração. Tomemos, desde já, como exemplo, alguns dos materiais que utiliza no seu desenhar: gesso, chá, ceras, carvão, óxidos, óleos, etc. Matérias que na sua utilização e na sua impossibilidade de fixação, se transformam continuamente. No entanto, o seu acto de desenhar não é aleatório, ou seja, não são as propriedades mutáveis dos materiais que dirigem a mão da Martinha, mas antes, um rigor que sabe incorporar a contingência. Uma equação instável que resulta do método científico de tentativa-e-erro. Estas linhas estão tenuemente inscritas nesta folha, porque ainda está próxima a minha experiência de acompanhar a realização da peça que o Espaço Arte Tranquilidade agora hospeda. A arquitectura recebeu o desenhar da Martinha Maia. O que nos leva a pensar e a olhar o espaço da galeria, como se de uma folha de papel se tratasse. Os volumes e os vazios, a opacidade e a transparência, o interior e a cidade, são áreas de intervenção do seu gesto, do seu desenhar. E vice-versa. A artista encontra arquitecturas a partir da folha de papel. A convivência com o artista no atelier é insubstituível para compreender as suas descobertas, hesitações, resistências. É um tempo e um espaço do qual estamos excluídos, ainda que possamos participar através do nosso olhar, presença e resposta a esse fazer.

A Martinha nasce em 1976 em São Mamede do Coronado, aos 18 anos muda-se para as Caldas da Rainha para estudar Artes Plásticas na ESAD. Esta escola, nestes anos em particular, incutiu um verdadeiro exercício de liberdade de experimentação, formando práticas artísticas com uma forte incidência na fusão das fronteiras entre disciplinas, na mediação entre os limiares público/privado e fomentando o trabalho em comunidade. Eixos que desde então centralizam a pesquisa e produção artística de Martinha Maia. O nosso primeiro encontro dá-se a propósito da escrita de um texto sobre a exposição “Negro” apresentada na Agência Vera Cortês, que resultava de um período de residência na Casa Velásquez, em Madrid. No contexto desta mostra de trabalho, também era apresentada uma performance que decorria na casa das máquinas de uma gráfica desactivada. Escrevi na altura, “o cheiro, ainda presente, remete para o negro brilhante e profundo da tinta de impressão. Numa primeira instância, foi o processo de aproximação da artista a um objecto estranho, sem peso e negro – matéria sem estado definido (...) que, à semelhança do exercício de observação do movimento das nuvens, e da sua impossível fixação, fazem ressonância com o capital da pesquisa actual da artista: a procura das formas do informe.” Surpreende a sintonia destas ideias com a presente investigação da artista. Detenhamo-nos em algumas destas impressões: cheiros, texturas, matéria sem estado definido, fixação, etc. A Martinha convidou-me para escrever sobre a primeira apresentação dos desenhos feitos com ceras negras, na exposição “Transferências” apresentada na Giefarte. Nesses dias eu encontrava-me no Rio de Janeiro, e nas suas palavras era indispensável o relacionamento de todos os meus sentidos com a sua obra. A Martinha fez-me chegar, um livro de artista, onde reunia alguns ensaios das durações do material que recentemente descobrira. Acrescida da experiência táctil e solitária com o objecto/obra, tornou-se-me clara a natureza sensual do seu desenho. Reafirmo. Entendo todo o trabalho da Martinha Maia enquanto Desenho, um desenho da sensação. De sensu et sensato, da sensação e do sensível.

A experiência da sensação e do sensível são as duas vias pelas quais descobrimos as obras em exposição no Espaço Arte Tranquilidade. Sobre os vidros da galeria: gesso. Relembremo-nos do tempo que este material evoca: da fusão do pó com água resulta matéria duradoira, simultaneamente, um processo muito célere contrastando com a antiguidade do seu uso. Entre os movimentos de proximidade/afastamento, interior/exterior, inscrição/reconfiguração, o desenho foi ao encontro dos limites do espaço. O trespasse e o encontro da borda com o traço, com a aresta, com o vértice são limiares essenciais no acto do fazer da Martinha. Um debate constantemente requalificado pela própria artista, atribuindo-lhe novas características, partindo de renovadas provocações para cada série de desenhos. A liquidez do chá, o alastrar das ceras ou a incidência da luz solar, suas gradações e intensidades cromáticas variam em função dos seus tempos de permanência sobre determinado espaço. Poderíamos estar a falar de experiências científicas, de uma receita culinária ou de um tratado de alquimia. Comum a estas actividades e ao desenho de Martinha Maia está a tensão entre a sensação e a sensibilidade, com uma rigorosa dimensão do tempo e do espaço que são vulneráveis, mutáveis e transformadores.

Maria Mar Fazenda, Oubobro 2012



Negro

O negro constitui um dos momentos de maior intensidade na conquista da cor.

A intensificação é causada por um trabalho de exaustão, de sobreposição de

camadas até se atingir a profundidade desejada. A primeira exposição individual de Martinha Maia, no novo espaço da Agência Vera Cortês, centra-se nesta busca pela profundidade que só o negro pode transmitir. Os trabalhos que apresenta são o resultado de uma pesquisa que tem vindo a realizar, e que se fortificou com a estadia na Casa Velázquez em Madrid como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. Os novos trabalhos formam um ensaio que se situa para-além da dualidade figuração/abstracção, para se centrarem sim na questão da tradução dos pressupostos da arte barroca na obra desta artista. De facto, o que se procura em cada trabalho é a dimensão teatral do gesto e do movimento do corpo. Quanto mais carregado for, maior o vestígio que deixará. O dramatismo da pintura barroca é evocado quer no confronto que Martinha Maia irá travar com as paredes da Agência, quer com outros suportes que constituem o núcleo desta exposição.

A artista propõe um diálogo entre o vazio e a saturação, entre a movimento do seu corpo a inscrever o gesto e o movimento do espectador a contemplar o vestígio. Este diálogo será prolongado, de uma forma mais imediata e confrontacional, na performance “Fluxos thing versão 2”que irá realizar em simultâneo à exposição, no espaço Interpress no dia 22 de Setembro às 22h.

 

Filipa Oliveira, Setembro 2007

 

Black

Black is one of the strongest moments when handling color. The intensification is brought by through the exhaustive exercise of overlaying layer after layer, until the intended depth has been reached. Martinha Maia’s first solo exhibition, in the rooms of Vera Cortês Art Agency, concentrates in this search for depth that only blackness can convey. The works presented by the artist are the result of a research she has furthered during her residency in Casa Velázquez, Madrid, with a grant from the Calouste Gulbenkian Foundation. The new works compose an essay that goes beyond figurative/abstract duality, in order to focus on the translation of Baroque Art concepts into the work of this artist. It is indeed the theatrical dimension of the gesture and of the body in motion that Martinha Maia looks for in each piece. The heavier the gesture, the stronger its track or its evidence will be. The drama of Baroque painting is summoned in the confrontation of the artist with the walls at the Agency and with other surfaces that are at the center of this exhibition. Martinha Maia creates a dialogue between emptiness and saturation, between the movement of her body while imprinting the gesture on the wall and the movement of the viewer contemplating its vestige. This dialogue will be extended, in a more direct and confrontational way, through the performance “Fluxos thing version 2”, which will take place at Interpress on the 22nd September, 10 p.m.

 

Filipa Oliveira, September 2007


Fatos

There is a great difference, as all of us have already noticed, between perceiving objects through the tip of an intermediate item, or a pair of gloves, and through touch itself. Most of us, too, have experienced the mistreatment, the torture a tight item of clothing can inflict on the body’s freedom (in some way, we all have been confined in a straitjacket). At the limit, such restraints on movement, together with the most elementary prosthetic experiences (the glove, the cane), add depth to an intermediary element, which both protects us from the world and allows us to contact with it: the skin; in a way, they come to show how our experience of the world begins at its boundaries.    

Martinha Maia’s work, which has developed itself in thoroughly polymorphic ways (the artist has employed drawing, performance and video simultaneously) finds its gravity centre in the following question: where does a body end, where does my body end? What, in the end, is a skin? The experiments carried out by Martinha in a variety of media all share the constant need to define that element, which separates the inside from the outside but also keeps them in contact. Taking this into consideration, it can be said that the performance she now brings to the Mitra space (which, in spite of being conceived as a whole specifically for this location, combines recent elements with others already presented in other contexts) is fundamental to our understanding of the coordinates that guide her work.   Martinha Maia presents here a number of suits created by herself for her body, which work now as anatomical extensions (almost like prosthetic limbs), now as inhibitors of the most common movements (when body and suit do not coincide).

Specifically conceived to (dis)adapt themselves to their wearer, these clothes, made from materials ranging from extremely thin to extremely thick, from extremely malleable to extremely unwieldy (like plastic and felt), intensify the few movements they allow, amplifying certain perceptive faculties. The possible choreographies (limited, and in a way imposed, by the suits themselves) are assisted by mechanical elements, like an electric fan (which inflates a very light suit, made of plastic tube) and an elastic band affixed to the wall, which allows Martinha to remove a piece of clothing without using her arms, like an animal being skinned, or a snake changing its skin.  

In spite of being quite individualised, the suits’ forms, proportions and weights have all been defined for Martinha’s body and its experiences and memories (she is unable to imagine other people wearing them); however, it remains true that this action carries a high degree of depersonalisation: with her perceptive awareness tense and stretched, the performer ends up seeing herself as a medium (the point through which information passes, nothing more) and undergoes a (metaphoric and literal) deflation: at the end of the performance, Martinha Maia intends to carry out a series of vocalisations that remove as much air from her body as possible. Once again, it is a matter of throwing out a reverse.*

 

*Fragments from a text by Ricardo Nicolau, September 2004


 

O exercício do Exemplo


(diálogo entre a leitura de um fragmento de Giorgio Agamben e um traçado sobre o trabalho recente de Martinha Maia)

 

Um conceito que escapa à antinomia do universal e do particular é-nos desde sempre familiar: é o exemplo.

O elemento exemplo no bloco de trabalhos reunidos sobre o mote “Transferências” surge do processo da sua produção. Um desenhar cego é experimentado. Através do contacto, decalque e trespassar são criadas eternas reproduções do exemplo. Infinitos exemplares ocorrem da/na frente e do/no verso (do tempo) do desenho.

 

Nem particular nem universal, o exemplo é um objecto singular que, digamos assim, se dá a ver como tal, mostra a sua singularidade.

Cada Transferência #1, #2, #3,... é singular por via dos materiais (graxas, óleos, ceras) com que é emitida. São materiais autónomos – agentes vivos – portadores em si, do tacto do corpo que o constrangeu. Corpo-material-papel respiraram em conjunto. Partilharam uma mesma sombra.

 

Porque o lugar próprio do exemplo é sempre ao lado de si próprio, no espaço vazio em que se desenrola a sua vida inqualificável e inesquecível.

O desenho desvincula-se do processo. Passa a exalar por si mesmo. Quadros negros assinalam a profundidade de um vazio. Zonas transparentes circunscrevem o desocupado. Limites sensíveis da superfície-desenho convocam a vida.

 

Exemplar é aquilo que não é definido por nenhuma propriedade, excepto o ser-dito.

O exercício, ou a propriedade que define o desenho, ocorre da dualidade feita ininterrupta entre pensamento e processo. “Transferências” afasta-se do jogo complexo produzido pelo espelho barroco – acção: narrativa, gesto: figuração, corpo: prega –; recorre antes, a um teatro, onde o cenário e o fosso entre encenação e público foram subtraídos, e que se inteira no ser-dito.

 

Maria do Mar Fazenda (Rio de Janeiro, Setembro 09)

Exercising the Example

(a dialogue between a reading of a Giorgio Agamben fragment and some thoughts on Martinha Maia’s recent work)

 

One concept that escapes the antinomy of the universal and the particular has long been familiar to us: the example.[1]

The element example, in the group of works gathered under the title “Transferências” [Transfers], emerges from their production process.  An experiment in sightless drawing takes place.  Contact, tracing and transfer create eternal reproductions of the example. Endless specimens emerge from the / in front and from the / in the back (of the time) of the drawing.

 

Neither particular nor universal, the example is a singular object that presents itself as such, that shows its singularity.  

Each Transferência #1, #2, #3,.. is unique due to the materials (greases, oils, waxes) with which it is made. These are autonomous materials – living agents – that now carry the touch of the body which once constrained it. Body/material/paper have breathed together. They have shared the same shadow.  

 

Hence the proper place of the example is always beside itself, in the empty space in which its indefinable and unforgettable life unfolds.

The drawing disconnects itself from the project. It begins exhaling by itself. Black pictures mark the depth of a void. Transparent areas circumscribe the vacant. The sensitive limits of the drawing-surface invoke life

 

Exemplary is what is not defined by any property, except by being-called.  

The activity, or property that defines drawing, emerges from the now uninterrupted duality of thought and process. “Transferências” moves away from the complex interplay produced by the baroque mirror – action: narrative, gesture: figuration, body: fold – resorting instead to a theatre in which the scenery and the gap between performance and audience have been removed, and which fulfils itself in being-called.

 

Maria do Mar Fazenda (Rio de Janeiro, Setembro 09)

 

 

 

 



[1] Translator’s note: all Agamben quotes were taken from The Coming Community (transl. Michael Hardt), Univ. of Minnesota Press, Minneapolis, 1993.